Naquele dia Harva II não acordou porque para isso é preciso ter dormido. Ele passou a noite em claro preocupado com as prestações do Sultan Quadriplônico de Super Hiper Ventilação Ativada – um automóvel de quinta categoria fabricado pela popular Sultan Space Vehicle S/A.Harva II era eletricista quântico em uma fábrica de macarrão no distante planeta Lund, que fica para muito além do nosso sistema solar. Harva II era mais vaidoso que ambicioso.
Adorava carros e seu sonho era ter um espaçocarro último tipo da Truble mas ainda dirigia um motocarro com onze anos de uso que ele comprara de uma tia que alugava a casa dos fundos para ele.
Até ontem. Quando ele fez a loucura de ir a uma agência e comprar seu primeiro carro zero quilômetro, financiado em noventa e duas vezes. Agora estava lá. Virando de um lado para o outro preocupado com as prestações, pensando onde ele estava com a cabeça e tudo o mais.
Harva II era mais emocional que racional, assim como o eram os demais de sua espécie. Uns mais, outros menos, mas tudo dentro de um intervalo devidamente conhecido pelos psicólogos, psiquiatras e curiosos.
Mas tendo dormido ou não, era hora de ele sair da cama e ir para o trabalho – agora dirigindo um carro novo e não uma motinha velha caindo aos pedaços. Mas a preocupação insistia em se misturar ao sentimento de satisfação e orgulho no trajeto até a fábrica.
Harva II estacionou todo vaidoso seu carro e entrou pelo pátio, ansioso esperando pelos comentários e inveja dos colegas. Depois de muitos elogios, tapinhas nas costas e inúmeros pedidos para ver o carro na hora do almoço a rotina se instalou.
O primeiro trabalho do dia era no Soprador no. 4, que estava fazendo um barulhão enorme.
– Deve estar com problema no motor de ignição paralela – pensou ele enquanto juntava as ferramentas para se corrigir em seguida.
– Espera. O motor de ignição paralela é do meu carro, e não do soprador. Onde é que eu estou com a cabeça?
Antes de sair ele percebeu um burburinho e se aproximou do grupo reunido ao lado do bebedouro de silicone (em Lund eles bebiam silicone ao invés de água).
– Parece vem facão por aí – disse um colega em voz baixa para outro.
Harva II gelou.
Imagina ser despedido justo agora quando ele tinha noventa e duas pesadas prestações para pagar.
O que seria dele se perdesse o emprego?
– Ah! Isso é boato de quem não tem o que fazer – concluiu ele tentando evitar pensamentos piores enquanto saía da oficina para o trabalho no Soprador no. 4.
– Não vai acontecer nada. Não vai acontecer nada – repetia ele quase que no mesmo ritmo de suas passadas enquanto caminhava pelos meandros da fábrica.
Harva II colocou a caixa de ferramentas no chão e fez uma rápida inspeção visual no soprador.
– Azul Esplendor... Espera... Estou pensando na cor do carro.
Harva II chacoalha a cabeça para focar seus pensamentosno trabalho.
– Realmente está barulhento. Deixa eu ver isso aqui… Aaaaaaaaaaaarrrrgggggllllll.
Harva II acabara de perder seu dedo indicador direito.
Será que foi por causa do ato inseguro de colocar a mão no motor sem desligar ou das preocupações com seu Sultan Quadriplônico de Super Hiper Ventilação Ativada?
Wagner Munhê é formado em Engenharia Química e sócio da Presença Educação e Arte, onde atua como consultor e produtor de filmes de treinamento. Também é artista plástico.