COLUNA PUBLICADA EM 19/07/2010 09:17
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Ambiente por Inteiro

Estrada do Colono: um trilho de burros

 

Efraim Rodrigues

Peço perdão por repetir o título da coluna de 13/10/2003, mas é porque mais uma vez os políticos do Oeste paranaense desejam agora tre-quentar a idéia de cortar o Parque Nacional de Iguaçu em duas partes.

A nova edição da abertura da estrada do colono vem agora impressa em verde. Ela se chamaria Estrada-Parque Caminho do Colono de acordo com o projeto de lei do deputado Federal Assis do Couto (PT-PR), relatado pelo deputado Eduardo Sciarra (DEM-PR).

Já em 2003 mostrei que a simples melhoria do transporte não traz desenvolvimento. Entre São Paulo e Curitiba, por exemplo, há uma região paupérrima próxima a dois grandes centros. Desenvolvimento é resultado de vários fatores e transporte é somente um deles.

A região de Foz tem no turismo sua grande fonte de renda. Nenhum outro aeroporto do Paraná recebe tantos estrangeiros. Cortando o parque em dois e perdendo o título da UNESCO de Patrimônio da Humanidade a região trocará sua galinha dos ovos de ouro por 17,5 Km de estrada.

Chamar a faca que cortará o parque de estrada-parque é a estratégia mais recente. O deputado Assis do Couto em seu projeto de lei cita outras estradas-parque como Itu, a da Serra do Guararu e outras todas elas muito bem sucedidas em seus propósitos, com grifo de Vossa Excelência. O deputado parece não saber que estradas-parque servem para resolver, não para criar problemas. O fluxo de turistas estimula governo e empresários a resolvê-los. É assim em todas estrada-parque citadas pelo deputado. Nenhuma delas corta parques. O interior do Parque Nacional do Iguaçu é o último lugar do Paraná onde não existem problemas ambientais. Esta é a última grande floresta do Paraná. Não basta todo resto do estado para soja, caminhões e poluição? Temos que levar isto para o interior do Parque do Iguaçu também?

O grande argumento para a abertura da estrada é que ela já teria estado lá. É verdade, mas como trilho de burros, não de automóveis e caminhões. Se a história não serve para evitarmos burrices do passado, serve para quê?

Erros do passado conseguiram até agora transformar aquele trecho em capinzal. Em 2008 adentrei a pé os primeiros 7 km daquela estrada, então um mar de capim africano com algumas raras árvores nativas. Aos poucos a natureza tem fechado os erros do passado. A pressão que você fizer na Câmara dos Deputados fará diferença.

Conhecemos pouco sobre como as florestas reagem às ofensas que sofrem. Em 1993 sobrevoei uma floresta em Piracicaba-SP que recuperava-se de décadas de incêndio e cortes. Agora em 2010, com 17 anos a mais de recuperação, esperava que estivesse melhor, mas não está. As clareiras de capim aumentaram em seu interior. A dinâmica da floresta é mais complicada que a das árvores. Os deputados de Brasília não têm obrigação de saber disto, mas têm obrigação de conversar com quem sabe.

Se de toda forma os interesses individuais prevalecerem sobre a floresta, sugiro aos nobres parlamentares que ao menos a nomeiem Estrada-Parque Caminho do Colonião em honra ao capim africano que colocamos lá dentro.

Efraim Rodrigues, Ph.D. (efraim@efraim.com.br) é Doutor pela Universidade de Harvard, Professor Associado de Recursos Naturais da Universidade Estadual de Londrina, consultor do programa FODEPAL da FAO-ONU, autor dos livros Biologia da Conservação e Histórias Impublicáveis sobre trabalhos acadêmicos e seus autores. Nos fins de semana ajuda escolas do Vale do Paraíba-SP, Brasília-DF, Curitiba e Londrina-PR a transformar lixo de cozinha em adubo orgânico e a coletar água da chuva.

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